Quinta-feira, 6 de Abril de 2006

Meu ponto de vista contra o download ilegal.

Há muitos mitos e ideias erradas sobre esta questão.

 

A primeira é de que os cds em Portugal são muito caros. Será verdade?

Um CD dos Beatles em França custa praticamente o mesmo que custa em Portugal. É claro que existem flutuações de preço entre os países (campanhas promocionais específicas, por exemplo)... mas não nos podemos esquecer de que o IVA em Portugal é maior (e isso não é culpa das editoras). Também existem cds em Portugal que custam menos do que em França, por exemplo. Um passeio pela www.fnac.pt , www.amazon.de e www.amazon.fr mostra que os cds são caros em todo o lado. E se formos à www.amazon.co.uk , veremos que os cds em Inglaterra são ainda mais caros do que em Portugal se pensarmos no valor da Libra face ao Euro.

 

O mesmo vale para DVDs .

 

Onde os Cds são mais baratos é realmente na América, onde podem custar 30% a menos do que em Portugal. Acho isto perfeitamente compreensível se tivermos em conta o tamanho do mercado e o volume de vendas. Neste aspecto, as editoras e os retalhistas americanos são muito mais competitivos do que os europeus. O problema é que todos nós consumimos música americana e me parece claro que ela (a música americana) nunca será mais barata na Europa do que o é na própria América. Já comprei na Fnac (para enviar a um amigo americano) cds da Amália à 5 euros e um dos Madredeus à 9 Euros - o que me parece muito razoável, tendo em conta que os mesmos discos, em Nova Iorque custam 18 dólares. Há cerca de um ano, fiquei escandalizado por descobrir que no Aeroporto de Frankfurt encontrei a caixa The Capitol Albuns " dos Beatles ao dobro do que custava em Lisboa.

 

Hoje em dia é tão fácil mandar vir um cd de outro país. Por que é que os consumidores não se tornam mais inteligentes e não pesquisam preços e vêem onde é mais barato?

 

Pode haver flutuações maiores ou menores mas os cds e os dvds custam dinheiro.

 

Mas... por que é que os cds custam o que custam? Será que as gravadoras são gananciosas e ficam com 16 dos 18 Euros que eu pago por um disco da insuportável Mariah Carey ? Não acredito.

 

Tente o leitor responder a estas perguntas:

Quem paga à Mariah Carey ?

Quanto ganha a Mariah Carey ?

Quanto custa um estúdio de gravação durante meses?

Quanto custam os músicos por dia?

Quanto custa uma orquestra inteira?

Quanto custa o equipamento por dia?

Quanto custam os seguros?

Quanto custa uma composição?

Quanto custa um escritório de produção musical?

Quanto custa a produção de um videoclip da Mariah Carey ?

Quanto custa uma campanha de marketing mundial?

Quanto custa a concepção de arte gráfica num cd?

Quanto custa a produção do cd e da sua embalagem?

Quanto custa a distribuição dos cds ?

Quanto custa o transporte da fábrica até Portugal?

Quanto custa um poster?

Quanto custa as despesas de promoção em cada país?

Quanto custa o trabalho de design da capa?

Quanto custa afinar um piano?

Quanto custa a pessoa que escreve press releases ?

Quanto custam os direitos de autor?

Quanto ganha o retalhista?

 

Quem paga isto tudo?

Nós pagamos isto quando gastamos 18 euros num CD da Mariah Carey ou da Madonna ou do Robbie Williams .

 

E não me parece caro se pensarmos na quantidade de tempo, trabalho, gente e dinheiro que é necessário reunir até que o cd chegue às nossas mãos.

 

Está enganado quem pensa que tudo é lucro e que a produção de um cd (mesmo um baratinho) custa tuta e meia.

 

A indústria discográfica não está no ramo da caridade. Eles também têm direito ao lucro. O que há de errado com isso? Mas as pessoas não vêem que esta mesma indústria que é acusada de gananciosa investe milhões em todas as despesas acima (e outras) na esperança de receber um retorno (com algum lucro, é natural) quando nós comprarmos os cds . E estas mesmas editoras são até bastante generosas porque investem em artistas que não rendem um centésimo do que rende a Madonna . As editoras não são santas, mas fazem um trabalho essencial para o mesmo público que as condena (tudo isto por uma margem de lucro que não deve ser ofensiva para ninguém). É para benefício (também) dos consumidores que as editoras gantam muito dinheiro a tentar perceber que artista será o clássico do futuro.

 

E o que acontece à indústria se as pessoas que antes gastavam 18 euros num cd deixarem de consumir cds ? O que acontece se milhares de pessoas (ex-compradores) forem a um p2p e fizerem downloads de borla?

 

Mas há mais...

Na época do vinil, ninguém produzia discos facilmente e o número de editoras era muito reduzido. Hoje, graças à tecnologia, ao digital e aos pequenos estúdios em casa, há gravadoras pequenas a dar com um pau e montes de artistas que jamais seriam ouvidos se não fosse a viabilidade das pequenas gravadoras - gravadoras que não vendem milhões de discos. Alguém pensa nelas antes de fazer um download ilegal?

 

Poucas pessoas imaginam o que era uma gravadora em 1983 e o que eram as gravadoras em 2000.

E hoje elas são menos do que eram em 2000.

 

Porque hoje ninguém quer dar 15 euros num cd se puder fazer download ilegal gratuito.

 

Mesmo que os cds custassem 3 euros (valor economicamente inviável) a questão seria a mesma: quem os pagaria se pudesse fazer download ilegal gratuito? Alguém jogaria 3 euros fora? Do meu ponto de vista, o argumento de que os cds são caros e que deveriam ser mais baratos é uma hipocrisia, pois nada consegue suplantar o gratuito. Faz-se o download, imprime-se uma capa e já está: um cd. Para quê pagar 3 euros?

 

Ao fim de 20 anos a comprar cds originais, a minha colecção é enorme. Se eu não tivesse que pagar pelos discos, minha colecção provavelmente seria ainda maior. Mas é a vida... eu não posso ter tudo. Ao longo de 20 anos, fui compondo a minha colecção apenas com coisas de que gosto. Se tudo fosse à borla, provavelmente eu teria muito lixo (risos). Como tenho muito cuidado com os meus discos (porque eles custaram dinheiro e porque eu gosto deles) faço cópias ou selecções para ouvir no carro ou mesmo para ouvir em casa (e não ter o trabalho que trocar de cd ao fim de duas músicas).

 

Isto são cópias privadas e perfeitamente legais.

 

São legais porque eu comprei os discos originais (paguei à editora). Somente depois do acto da compra é que eu posso proceder à cópia legal (que somente é legal enquanto ela for para o meu uso privado).

 

Se eu permito que outros copiem a partir do direito de uso privado que eu possuo, estou a permitir que outras pessoas consumam sem pagar. Por outras palavras, não só estou eu a pagar para que outros usem, como estou a prejudicar directa ou indirectamente muitas pessoas.

 

Quem faz download ilegal é hipócrita porque reclama quando uma fábrica de sapatos na Beira Interior muda-se para a Bulgária deixando sem trabalho 40 trabalhadores... e não vê que está a fazer o mesmo às editoras que operam em Portugal.

 

Outra questão não menos importante:

Eu tenho muita pena que hajam pessoas que não possam comprar cds . Infelizmente, há quem ganhe pouco dinheiro e que não possa comprar sequer os remédios de que precisa (quanto mais gastar dinheiro em cds e entretenimento). Eu até sou compreensivo com quem realmente não pode comprar nada e que gostaria de poder ouvir alguma coisa... ok... eu tendo a encaixar estas pessoas naquele nicho onde se diz "sempre haverá alguma pirataria".

 

Mas não tenho pena alguma de quem gasta 90 Euros por mês em tabaco, 60 euros por mês em internet de banda larga, 50 euros por fim-de-semana em bebidas alcóolicas quando vai p'a night "... e que depois ainda reclama que os cds são muito caros.

 

Eu suspeito que a maioria das pessoas que se sentem ofendidas nesta questão, até poderiam comprar uns cdzitos por mês.

 

Mas não querem!

 

As editoras e os artistas também não têm culpa do facto das pessoas quererem ter tudo e não abrir mão de nada. Eu próprio não posso comprar todos os  cds que quero. Há cds que claramente eu sei que não vou comprar... paciência... é assim a vida. Também não posso comer caviar. Também não posso viajar de avião em 1ª classe. Também não posso comer à borlix em restaurantes. Infelizmente, vivemos numa sociedade em que toda a gente se acha no direito de ter tudo e mais alguma coisa. Se calhar não seria mal as pessoas pensarem um pouco naquilo que fazem com o seu dinheiro.

 

É curioso... as pessoas que se sentem ofendidas pela criminalização das infracções ao direito de autor escudando-se no argumento de que a música deveria ser mais barata e que os filmes são muito caros... (supostamente porque a cultura é algo essencial e blá blá blá ... nunca reclamam do dinheiro que pagam apenas para entrar no Lux...

 

Quem faz download ilegal revela um profundo desprezo por milhares de pessoas que trabalham muito para que a indústria discográfica continue a dar tanto prazer a quem consome os seus produtos. E há ainda quem se defenda a dizer coisas do tipo: "eu só faço download para ver se gosto... e quando não gosto, apago logo". Ora, esta atitude revela alguém que vê a Cultura em geral e a Música em particular como bens descartáveis. Ninguém precisa fazer um download ilegal para "ver se gosta". Qualquer loja online permite a audição de discos. Por que fazer download ilegal? Este argumento não faz sentido.

 

Ora, um cd ou um dvd é muito mais do que a mera música ou o filme que eles contém. E a maioria das pessoas não tem esta sensibilidade para perceber o mal que pratica quando faz downloads ilegais.

 

Quem quer apenas a música pode perfeitamente optar por um download legal (onde as músicas são muito baratas).

 

Mas é estranho... mesmo podendo pagar apenas 0.99 cêntimos na música que deseja, há quem continue a fazer downloads ilegais.

 

Seja qual for o caso, as pessoas estão mal informadas e mal acostumadas.

 

Com as perdas financeiras causadas pelo crescente download ilegal, as editoras arriscam menos, apostam menos em novos talentos e fecham escritórios em países pequenos como Portugal (onde a margem de lucro deixa de ser minimamente interessante).

 

É ridículo pensar que já existem editoras que tratam a música portuguesa a partir de Espanha (e em espanhol) - alguém ainda acha que isto não já acontece?

 

Com o download ilegal, perdem as editoras, perdem os artistas, perde o próprio consumidor.

 

Outro argumento perfeitamente idiota é aquele que diz que "antes de perseguir os internautas, que se persigam os pedófilos e os traficantes". Ora, é claro que a pedofilia é um crime horrível. É claro que o tráfico de drogas é um crime gravíssimo. A prova disso é a enorme disparidade entre a punição prevista para um assassino e aquela prevista para quem infringe o direito de autor - não são crimes comparáveis e as penas são bastante diferentes.

 

É sistemático: quem se sente frustrado por não mais poder fazer downloads ilegais atira sempre com este argumento. O próprio Direito classifica a gravidade dos diversos crimes possíveis. E dentro da classe a qual pertence a infracção ao direito de autor, a indústria audiovisual tem sido sistematicamente discriminada justamente porque a pirataria e o download ilegal são comportamentos socialmente aceites.

 

Não há nada mais tuga " do que um gajo achar-se genial por ter sacado à borla um cd e vangloriar-se do feito, papagueando a própria esperteza de ter sacado à borlix o que os outros parvos pagam.

 

A única mudança agora é que a infracção ao direito de autor está a começar a ser tratada como o crime que é e sempre foi.

 

Neste mundo também não existem Robin Hoods (outro argumento idiota utilizado: "estamos a tirar dos ricos para dar aos pobres"). Isto é uma simplificação grosseira da questão. E as pessoas que perdem o emprego quando uma editora fecha? E o artista que não assina contrato porque a editora não vê viabilidade?

 

As editoras são pessoas. Técnicos, artistas, fornecedores, trabalhadores, contabilistas, mulheres da limpeza... e essas pessoas pagam impostos. E as editoras pagam impostos. E todas estas pessoas também dependem dos cds e dos downloads legais.

 

That's all folks !
publicado por Equipa SAPO às 23:57
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