Eu acho piada à suposta inocência de todos estes senhores. Primeiro gostava de saber como chegaram a gestores de empresas quando não conseguem olhar para o salário mínimo (o médio também serve) nacional, subtrair-lhe o aluguer da barraca (sim, porque em Portugal poucos podem comprar ou mesmo alugar casa), alimentação, transporte para o emprego, o cafezito diário que toma com os amigos enquanto se queixa que não consegue pagar as contas, agua, luz, electricidade e rezemos para que o nosso sujeito de amostra não fume… Senão bem que fuma marca “crava”, mas por um lado até é bom. Fumar mata!
E mediante este panorama, se o nosso sujeito conseguir juntar dinheiro suficiente para comprar o cd daquela banda fenomenal que passa aquela musica na rádio ao fim do ano (quando o preço do cd baixou consideravelmente), quando o ouvir vai ficar desiludido… pois muito dificilmente o cd é todo de seu agrado. Ele até nem o teria comprado se pudesse ter ouvido as músicas todas, mas a rádio incrivelmente durante um ano inteiro apenas passou duas músicas do álbum…
Acham esquisito? Também eu!
É no mínimo estranho que um gestor que ocupa um cargo tão importante dentro de uma organização não consiga fazer esta conta, nem tão pouco consiga uma comparação entre… sei lá, uma loja online americana (sim, lá do outro lado do Oceano) e… bom as lojas de musica em Portugal escasseiam, mas já lá vamos… Lá terá de ser a FNAC.
E o estranho é que se compararem os preços da amazon.com (lá do outro lado do oceano) e da fnac online, com portes de envio e câmbio, incluídos vão ficar boquiabertos… pois o álbum da Madonna que vem lá do outro lado do Mundo com portes e câmbios sai mais barato que compra-lo na FNAC…
Acham esquisito? Pelos vistos só mesmo os formidáveis gestores das empresas discográficas é que não.
E no meio de tanta corrupção, vigarice, fraude, burla etc, etc… deste canto do Mundo as editoras estão preocupadíssimas com os piratas que tiram as musicas da Internet para consumo próprio… ora cá está mais uma vez um erro que qualquer gestor (leia-se pessoa com dois olhos abertos na testa) não deveria cometer já que menos de metade dos Portugueses é que tem acesso à Internet, logo não podem ser culpados de 50% de queda das vendas… até porque parte de quem pode desembolsar os 30€ mensais pela Internet com serviço miserável e monopolista da PT também pode comprar um ou outro cdzito na loja de musica mais próxima.
Então quem serão os culpados da queda de vendas? Será o IVA a 21%? O pobre coitado que quer ouvir alguma música diferente da que ouve na rádio e com conhecimento de causa comprar, ou não, o cd? Ou aquele gajo com olho para o negócio que faz copias ilegais e todos os fins-de-semana está na feira a vender perante os olhos atentos do policia, não vá ele ser assaltado???
Mas a culpa dos cds estarem assim tão caros não é culpa só das editoras discográficas… nem só do Governo (e os 21%) mas também das lojas… ou melhor, loja…
Não sei se se lembram dos tempos idos em que não existia FNAC e por incrível que parecesse havia lojas de musica… lembra-me no Porto de várias e entre elas uma particularmente agradável (a Roma, lembram-se??) e também de várias roullotes que enriqueceram muita gente à custa da cassete pirata…
Mas assim de mansinho lá entrou uma multinacional do entretenimento que, da mesma maneira que aconteceu com os complexos de cinemas, arrasaram com as pequenas lojas e até com o Chico das cassetes. Ora eram promoções de espantar, preços fenomenais, tudo ali junto e até têm um cafezito lá dentro. E pouco a pouco ficaram donos do mercado passando a fazer uso do conceito romano de propriedade (usar e abusar) sem que ninguém os apelidasse de piratas.
Acho também piada que quando alguém usa a mesma estratégia contra essa mesma multinacional, ela vem logo a publico queixar-se de concorrência desleal… Será que não tem memória? Ou gostam de comprar o árbitro?
Não há dúvida que este é um problema complicado. E não é com a possibilidade de comprar faixas na Internet com limite de uso (eu não ouço um cd 10 vezes!!), e portabilidade limitada que se resolve o problema. Mas com uma análise concreta ao problema. Concordo que haja quem aproveite os piratas ou as possibilidades da rede p2p mesmo tendo possibilidades para enriquecer os bolsos das coitadinhas das editoras discográficas, mas tal não é o caso da maior parte da população Portuguesa…
Porque não adoptar as estratégias que outras indústrias que vendem produtos completamente diferentes adoptaram???
Estou-me a lembrar que antigamente (há um anito ou isso), para viajar de avião era o cabo dos trabalhos e ficava por um preço absurdo. E no entanto hoje vou e venho a Dublin por 20€ (mais ou menos o preço de um DVD na FNAC).
Porque não tornar o cd um objecto com extras?
Se analisarem bem as coisas, a maior parte das pessoas que tira álbuns da Internet não tira as capas ou o livrinho que acompanha o cd. Porque o que lhes interessa é o conteúdo e não as fotos das rugas do Zé Pedro dos Xutos, ou o grafismo todo exuberante dos Jamiroquai, ou as montagens nos álbuns da Bjork, ou mesmo o rabiosque da Madonna… (bom, quando ao rabiosque da Madonna…)
Então o cd sem impressão seria vendido a um preço, se quiséssemos a capa dura, seria mais x se quiséssemos com o livrinho mais um pouco e se quisesemos o pack completo pagávamos os tais 15/20€ da normalidade.
E nem me ponho a falar dos livros… Pois ultimamente passei uns tempos em centros de cópias e não vi ninguém a fotocopiar as Intermitências da Morte ou os livros da Margarida Rebelo Pinto. Mas sim livros caríssimos, por norma escritos por pessoas que têm a sobrevivência assegurada por faculdades e instituições que tal, e que por norma escasseiam em Portugal.
Sim, porque a FNAC também arrasou muita livraria e agora nem livro técnico têm…
Atentamente,
Carlos Cardoso